Cândida atravessa o Terreiro de Jesus ao som do berimbau. No mesmo instante, atravessa a praça uma bela senhora, cabelos cor de prata, traços finos e olhar sereno, com um lindo chapéu, diferente dos chapéus de palha que se compram na Feira de São Joaquim. Cândida lembra-se de tê-lo visto nas estampas americanas do século XIX. A senhora sorri-lhe, saúdam-se e começam a falar, assim, simplesmente. Ela tem o nome de uma flor; diz que vem de Nova York, e está visitando a Bahia. Acabam falando da beleza do mundo e da existência de Deus. Um encontro lindo para concluir uma tarde iniciada algumas horas antes, no Solar do Unhão.

   Cândida chega lá adiantada. Enquanto espera que o Museu abra as portas, senta-se sobre as pedras antigas, perto do mar. Um pequeno barco oscila a dois passos da beira. Quatro pescadores esvaziam as magras redes. Um relampejar dança no ar e treme na areia, uma última tentativa de chegar á água, de alcançar a vida.

   Entretanto, chega a hora da abertura. Sāo os últimos dias da Expo Estranhamente possível, obra audiovisual dos artistas Mauricio Dias e Walter Riedweg. … última tentativa de chegar á água, á vida … e Cândida deixa-se levar por o longo fluxo que da ilha Sørfugløya, ao norte da Noruega, serpenteia até o bairro da Gamboa, lá na Bahia. As paredes esfumam-se, só permanece a voz do mar, e ela reconhece a força tranquila e profunda dessas mulheres sem ninharias.

   Ela sai da expo e, leve como um pássaro, sobe a ladeira até o Mercadinho do Dois de Julho. A Avenida Sete, como sempre, é barulhenta, um formigueiro de camelôs, vendedores de poção mágica, meninas distribuindo figurinhas, sacras e profanas. Cândida não recusa nada. Cada publicidade vai parar na sua inseparável sacola de algodão orgânico, lembrança de uma vida anterior. Uma vez chegada em casa, segundo o humor, ela lê ou joga. E  hoje o humor é esplendido.

   Ela começa a ler um primeiro folheto:
“Você não consegue mais ler como antes? Temos a solução: compre novos óculos com os nossos descontos para a terceira idade.”
Lê o segundo:
“Hoje que você está aposentada, não perca o seu tempo, aprenda a usar o computador.”

   Cândida volta com os pés no chão, como se tivessem cortado as asas do passarinho. Ser e Parecer.

– Vixe Maria! As meninas tem olhos de lince. Conseguiram ver até meu cabelo “grisalho”. Sim, eu sei, dito assim parece o primeiro dia de Quaresma.
– Favor, Meninas! Abram o terceiro olho e pode ser que enxerguem o arco-íris que dança em volta de mim.
– Aposentada? Palavra dos tempos antigos. Uma manhã, nós levantamos e descobrimos que, durante a noite, Grande Irmão havia cancelado a palavra do dicionário; então, Meninas, se vocês me dão o seu email, lhes envio esta mensagem.

   Arroboboi, Oxumarê!!!
– Oxumarê, peço desculpas se escrevi errado, mas sou novinha com a sua linguagem.

      Muito Axé a todos vós, especialmente a Vocês, Meninas, que o caminho está eriçado de armadilhas.

Oxumare 219

Annunci